sábado, 7 de março de 2015

Psicofobia - Preconceito contra portadores de doença ou deficiência mental

Para mim, é mais fácil dizer que tenho uma namorada do que uma psiquiatria e uma psicóloga. 
O que diz isto de mim? E da sociedade?
E o que dizem vocês?

Orquídea

13 comentários:

umquartoparaduas disse...

Ainda hoje pensava nisso. Há muito preconceito em relação a doenças mentais. É quase uma vergonha dizer que se vai ao psicólogo ou ao psiquiatra.
Era bom que começasse a mudar.
Tal como tu, é mais fácil dizer que tenho uma namorada do que dizer que já tive numa urgência psiquiátrica. E isto é parvo. Acho que não devia ter vergonha disso!
É importante começar-se a falar de saúde mental. De acabar com alguns mitos e preconceitos.
É um tema bastante importante e que merece ser discutido!

Carla |O| disse...

Tendo estado na pele da prestadora de cuidados acho que é preciso falar-se cada vez mais disso e com menos vergonhas e menos véus. Para bem de quem necessita de acompanhamento e para bem de quem acompanha.

Acho que também é preciso que as "terapias" não foquem apenas o doente mas se estendam à família, grosso modo tão pouco preparada para compreender e lidar com os problemas entre mãos.

E é preciso falar, partilhar, aprender. Nesta luta não se pode estar sozinho.

um quarto para duas disse...

*começar
* e de acabar...

B. disse...

Embora admita o preconceito por parte da sociedade, não sou capaz de ignorar o facto de tu seres a primeira a descriminar tua atitude.
Não podemos apontar o dedo e dizer que os outros estigmatizam as nossas situações quando somos os primeiros a recuar por medo das eventuais consequências.
Ninguém é rebaixado sem o próprio consentimento e isto vale para tudo desde o bullying até à violência doméstica ou à homofobia. Nesse sentido, o teu comportamento revela mais sobre ti do que da sociedade.

Papoila e Orquídea disse...

Carla |O|, tens toda a razão, quando se fala em doença mental, há doentes e há quem os rodeia, todos precisam de apoio e da so called psicoeducação.

B., confesso que o teu último parágrafo me deixou arrepiada. Ao afirmares que ninguém é rebaixado sem o próprio consentimento negas a existência de fragilidades individuais, tão habilmente aproveitadas pelos abusadores, e incitas a culpabilidade da vítima, o que promove ainda mais a vergonha, o silêncio, a conformação, a ausência da reclamação (e reconhecimento!) dos direitos ao respeito e dignidade. E na doença mental, onde há alteração da capacidade de se reclamar, mais ainda a tua afirmação se torna preocupante. Talvez quando lidares com frequência com situações de doença mental e fores confrontada com o estigma a ela associada compreendas o perigo da tua afirmação.

B. disse...

Como disse anteriormente, não nego o preconceito. Contudo, acredito que este tipo de problemas é combatido pelas próprias vítimas.
É um ciclo vicioso: fragilidade gera vergonha; a vergonha faz o medo; o medo traz a culpa, a culpa leva ao preconceito e o preconceito resulta em fragilidade. A quebra do ciclo tem de partir de alguém porque quebra-lo é não consentir.
A história do "se eu não gostar de mim quem gostará?" é exemplo disso, se são as próprias vitimas a sentirem vergonha do que fazem, como é que esperam que os outros não sintam também?
Em última analise, incito à coragem e espero que os profissionais de saúde mental também sintam essa responsabilidade porque perigoso é incentivar à culpabilização. Não é preciso ser médico para perceber isso, pois não?

Carla |O| disse...

B, se as coisas fossem assim tão fáceis era óptimo mas nunca são assim tão fáceis. Não se pode desligar um botão e, de um dia para o outro, deixar de ter o problema ou deixar de ser o problema. Ademais estamos a falar de doenças do foro mental o que desvia o assunto muito para além das questões de auto-vitimização e preconceito e vergonha e o dever de lutar contra o bullying e etc.

Isto é uma coisa completamente diferente que nem sempre é consequência directa dos actos do individuo ou fruto do ambiente que o circunda ou provocada pela intervenção de terceiros.
A partir do momento em que olhamos para a doença mental e para o doente mental e os classificamos dessa forma – como se só eles fossem culpados pelo seu estado e só não saíssem dele porque não querem – então estamos a confirmar que, de facto, a sociedade não entende estas questões e como não as entende, nem procura entende-las, incorre em julgamentos de valor gravíssimos e não faz aquilo que é suposto que faça: que participe activamente na terapia e inclua, normalize, ajude. Que aprenda. Que saia do alto da sua autoridade moral dita mentalmente normal e entenda que o cérebro humano é feito de muitas cambiantes e muitos, muitos, muitos, processos bioquímicos. Processos a que a vontade das pessoas é alheia e que não se tratam e curam apenas porque uma pessoa acorda um belo dia e diz: eu vou conseguir!!

Um doente no limiar das suas forças não tem capacidade para se erguer e lutar pelo direito à inclusão na sociedade. Um doente no limiar das suas forças precisa curar-se. Precisa viver mais um dia, aguentar mais um dia, precisa viver por etapas. A maior luta que o doente mental trava, na maior parte das vezes, nem é contra a sociedade e o seu direito a existir nela mas contra si mesmo. Contra a pulsão de desistir e deixar de existir. E isso não se consegue com máximas de “quem não gostar de mim quem gostará?”. Isso consegue-se com terapia, com medicamentos, com família e amigos a providenciar uma rede de apoio e, mais vezes do que não, em constante vigília. Em sobressalto. Com medo.

Nestes casos nem é tanto o individuo que tem de dizer à sociedade que “hey, apesar de tudo, sou normal, posso estar entre vocês” mas é a sociedade que tem de dizer ao individuo “hey, está tudo bem, estás entre nós, nós vamos ajudar”. Esta problemática não diz respeito apenas a um certo número de pessoas, diz respeito à sociedade por inteiro, diz respeito aos governos, diz respeito ao mundo que vive nesta era moderna em que estas doenças são cada vez mais predominantes. Diz respeito, também, à economia.

Não é a toa que há estudos, que há campanhas, que há previsões de como vai evoluir e de como vai afetar a todos. E se existe esta preocupação por parte de quem acha que é preciso tê-la então isso quer dizer que nem sempre é o individuo que tem capacidade para mudar a opinião da aldeia mas que é a aldeia que tem o dever de amparar o individuo. Quando o individuo não consegue falar – como muito bem aponta a Orquidia – alguém tem de falar por ele.

B. disse...

Primeiro, não estou a simplificar as coisas como tu fizeste parecer, é um processo das duas partes. Até porque se não há ninguém que acorde e diga: Vou conseguir!, também não há uma sociedade que acorde e diga: Agora eles merecem o mesmo respeito que nós!
Segundo, concordo com o que tu disseste e acabaste por ir ao encontro do que escrevi quando dizes que "a sociedade não entende estas questões e como não as entende, nem procura entende-las, incorre em julgamentos de valor gravíssimos e não faz aquilo que é suposto que faça". Nesse sentido, o que proponho é que o processo seja feito, essencialmente, de dentro para fora e não o contrário.
Para concluir, e como muito bem aponta umquartoparaduas, gostava de reforçar a ideia de que termos vergonha de assumir o problema é parvo.

um quarto para duas disse...

Ai, tinha aqui um comentário enorme e isto foi-se.
Resumindo:
Eu acho parvo ter vergonha de ter uma doença mental. Assim como acho parvo um dia ter tido vergonha de ser lésbica.
Mas isso é agora, com algum distanciamento e depois de um longo processo de aceitação.
Não acontece de um dia para o outro. E o apoio de quem nos rodeia é fundamental. Claro, quanto mais informadas forem as pessoas (família, amigos, sociedade em geral), melhor. Só alguém informado e sem preconceitos nos pode ajudar. Porque se assim não for, por muita vontade e força que tenhamos para querer sair do "fundo do poço" (estou a falar da depressão, por exemplo), sem uma rede de apoio é quase impossível. Já para não falar de que essa vontade de querer ficar bem, nem sempre é fácil de alcançar. Umas vezes porque não se tem capacidade para tal, outras porque não há o tal apoio necessário.
Olhem, estas coisas são complicadissimas. É uma espécie de bola de neve. Acho que nunca se deve culpar o doente, mas também não se deve vitimiza-lo em demasia.
Mas, na minha opinião, é muito importante envolver a família, informar, quebrar mitos. Só assim a vergonha (do doente e de quem o rodeia) pode ser eliminada!

B. disse...

umquartoparaduas, tens toda a razão, ninguém disse que era fácil! :)

Anónimo disse...

Uma mulher ter namorada já foi classificado como doença mental...portanto, dizer uma coisa não está temporalmente muito longe da outra. ;)

Bem, no meu meio teria mais dificuldade em dizer "tenho namorada" do que "vou ao psicólogo" curiosamente.

No entanto, acho que "psiquiatra" comporta mais estigma do que "psicólogo". Ir ao psiquiatra parece-me mais visto como "fim de linha a dar o tilt" (doença mental efectiva, que como dizes é mais estigmatizada) e ir ao psicólogo um nível mais atenuado desse fim de linha. É a sensação / pré-conceito que tenho.

Respondendo à tua questão directamente: Do que diz de mim? Talvez tenha recebido ao longo da minha vida mais feedbacks negativos relativos à homossexualidade (muitos de componente (a)moral, de vergonha e culpa) do que feedbacks negativos sobre a doença mental (algo a ter vergonha e a esconder também, mas que o individuo não tem culpa).

Do que diz da sociedade? Teria de pensar mais, mas é uma questão muito interessante para uma longa tertúlia. :)

Arine

Isabel disse...

Este coisa toda à volta das palavras da B. faz-me um pouco de confusao porque parece que ela disse que era fácil, pelas respostas que obteve parece que não sabe do que está a falar, parece que ela chegou ontem ao mundo e voces tem de dizer-lhe o que se anda a passar, como se a rapariga andasse de olhos tapados.

Toda a gente tem vergonhas e todos temos problemas. Nao acredito que ela seja excepção. Não a conheço, não sei a vida dela mas deu-me a sensaçao que alguem que fala assim até pode ter algum conhecimento de causa.

Nos dias em que vivemos é muito perigoso alguem ter uma soluçao diferente para um problema comum porque isso é confundido com uma certa prepotência e ignorancia. Eu propria ando a treinar-me para ouvir mais as pessoas que nao pensam como eu porque chega a um ponto e andamos todos mecanizados e standarizados,

Realmente, nunca tinha pensado o problema na perspectiva que ela o apresentou e, concordando ou não, é apenas uma opinião tão válida como as outras - Arrojada mas certeira e sensata.

Arine disse...


Uma situação de vitimização comporta sempre uma desigualdade de poder, seja ele qual for: de força, de cifrões, de número, de status social, etc etc.

Pode-se ter a "vítima" mais empowered do mundo, que se a desigualdade for brutal a luta está perdida.

É preciso muito cuidado quando se aborda estes fenómenos (bullying, violencia doméstica, homofobia etc) porque as soluções, à semelhança das realidades, são várias, diversificadas, mas muito pouco lineares.

E nenhum ser humano é uma ilha de onde se possa isolar de todas as toxicidades do ar. Ainda ontem me espantei que o discurso do Papa fosse tão pro-women (basicamente as mulheres são espectaculares e todos aplaudiram), mas a instituição que representa nunca permitiria uma mulher discursar daquela janela. É só para mim que isto é incoerente? Sou apenas eu que sinto que a mulher é inferiorizada e ainda aplaude?

Agora pegar num ser fragilizado (vá, aí uma depressão profunda que nem pela vida lhe apeteça lutar) e colocá-lo de cartaz em punho... :)

Estas discussões são boas para despertar consciências. E essas sim podem mudar o mundo. A mim já me fez pensar em algo diferente hoje!