segunda-feira, 1 de abril de 2013

A Insustentável Leveza do Ser


Quando somos pequenos vemos as coisas como certas. A mamã, o papá, o mano, os avós... vão estar sempre ali para nós. E vai ser assim para todo o sempre - é, indubitavelmente, um dado adquirido. Esta utopia protege as crianças e permite-lhes ter um desenvolvimento adequado. Seguro. Dá-lhes identidade, auto-estima, valida-lhes os sonhos e acalma-lhes os medos. Nesta altura, não se compreende a insustentável leveza do ser.

Nessa altura o meu tio trazia-me mochilinhas em forma de koala. Fazia-me groselha com mais concentrado que água. Convencia o meu pai a levar-nos ao banho no ribeiro. Deixava-nos ficar no sofá até às tantas da manhã, a comer as amoras que apanhávamos na serra e a ver programas que não eram para a nossa idade. Nessa altura o meu tio era um herói. Combatera no Ultramar, vira amigos a morrer e veio de lá com stress pós-traumático. Depois foi para Lisboa e, as suas fotos nos álbuns de família, mostram um jovem com personalidade. Um quase modelo dos anos 70, de camisas riscadas e sapatos polidos, que posa para as fotos com um estilo peculiar e atractivo. Foi um segundo pai para os seus 5 irmãos mais novos... e, não fosse ele, nem tudo teria sido fácil.

Depois cresci. Estudei e entrei em Medicina. Vi coisas que me foram moldando e que, sem eu querer, criaram uma barreira entre a emoção e a objectividade - esta barreira protege a minha fragilidade e susceptibilidade. Permite-me conviver de perto com coisas horríveis sem que isso me vá carcomendo. Agora, depois disto, sei que nada é certo. Que nada é para todo o sempre. Agora compreendo a insustentável leveza do ser. 

Perguntaram-me se era grave. Perguntaram-me qual era a esperança média de vida. Como eram os procedimentos. O que se seguia. Eu fui respondendo e, enquanto as minhas respostas iam destruindo quem as ouvia, a minha barreira não se baixou. Eu, objectiva, ia dando dizendo o que ninguém queria ouvir. Disse também, como que a querer desculpar-me, que todos os casos são únicos. Que pode não ser bem assim. Que ele é um homem forte. Que os médicos farão tudo o que está ao seu alcance. ... ... Mas sem acreditar, em plenitude, nisso. 

Sinto-me culpada. Talvez devesse ter ficado pelo "acho que devem ir vê-lo o mais rapidamente possível".

Espero que a minha avó não veja outro filho morrer. 

Que eu não saiba nada de medicina... e que tudo corra ao contrário.

Papoila

5 comentários:

Carla |O| disse...

Não te sintas culpada. Já estive do outro lado, escutando essas mesmas palavras que disseste, e no meio de tudo o que não se sabe como vai ser são essas palavras, é essa postura, que nos mantém com os pés assentes na terra... prontos. Nunca preparados... mas prontos.
Isso faz toda a diferença.

Força.

Nikkita disse...

Força.

Beijinhos.

T.S. disse...

Muita força para todos vocês!

Abraço nosso,

T.S.

Anita disse...

Força!! beijinhos

Muita História para contar... disse...

É complicado... o deixar de existir é um fato inexorável e difícil pra todos nós...e pra nós que entendemos um pouco dessa passagem, ou melhor, do momento objetivo dessa passagem, fica ainda mais difícil. Ora mostramo-nos impávidas como rotineiramente somos ensinadas a aparentar, ora conflitamo-nos com as fragilidades que nos são inerentes.
Força!