terça-feira, 29 de junho de 2010

Altas

Em reunião a porta fechada, vinte e duas batas brancas e narizes bem apontados para o céu, discutiam doentes. Ao pescoço ostentavam os escuros estetoscópios, sinal de soberania e poder perante os impotentes das camas.

Na cama seis estava aquela velha que já nem comia nem falava. Tanto lhe pesava o leve corpo que, nas eminências, já os ossos lhe comiam a carne. Havia buracos na sua pele que há meses lutavam para fechar. Todos os prazeres lhe haviam sido roubados, nem a decência humana lhe sobrava.

Comentei ontem que talvez a morte lhe fosse resolução.

Hoje a senhora teve alta. Alta celestial. Subiu tão alto que já ninguém a apanhou.

Papoila

3 comentários:

Nina disse...

é duro. força.

Poppie disse...

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Rita disse...

Gosto de te saber assim consciente das soberanias, dos poderes, da dor, da decência.

Injectas-me uma fé no ser humano.

A medicina não nos cura tudo. Um dia todos subimos. Mas as pessoas por trás dos médicos e dos enfermeiros podem ajudar a curar a alma e isso talvez seja o suficiente para que tenhamos uma alta celestial serena.

Um grande Abraço!

d'A Miúda dos Abraços